12 de julho de 2025. Faz um mês que fui embora de Cavalcante. Estou do lado de dentro do balcão de um bar em Juiz de Fora - MG. Do outro lado, um cliente cativo cujo nome não faço ideia, mas cuja conversa me incomoda horrores. Naturalmente detesto papo de homem que gosta de aparecer. Pego uma comanda usada e começo a rabiscar umas coisas…

Martini Seco
3 dias antes de morrer, como de praxe, ele havia pedido um drink no balcão: Martini Seco. E não esqueceu de pedir sua azeitona extra no pratinho. Dizia ele que aquela espetada com o palitinho era só enfeite e que, além disso, a azeitona do drink ficava com gosto muito forte da bebida. Todo dia era assim, o mesmo pedido e a mesma azeitona extra e, foi justamente a ausência dele que fez com que, naquela quarta-feira cinzenta, Glenda, a garçonete, desconfiasse de que algo poderia ter acontecido a Edgar.
Edgar era um cara solitário que, às 20h, de segunda à segunda naquele pequeno bar, encontrava refúgio e um pouco de atenção em um copo coquetel com 60ml de gim, 10ml de vermute seco e duas azeitonas: uma espetada num palitinho repousada no fundo do copo e outra extra acomodada num pratinho.
Depois de questionar aos colegas de trabalho, obter uma resposta ao seu telefonema poderia resolver o incômodo de Glenda. Se Edgar tivesse atendido: “o número chamado não existe. Por favor, verifique o número discado e tente novamente.”
Edgar frequentava o bar há alguns anos, praticamente desde a inauguração e, mesmo que Glenda não soubesse dele mais do que confissões feitas às taças de Martini Seco e às paredes do bar, além do número do seu telefone para responde-lo se o bar estaria aberto nos feriados, ela o considerava um bom amigo.
Naquela noite, Glenda não foi pra casa depois do expediente. Ir à delegacia parecia mais coerente, mas um escorpião entalhado em madeira preso a uma chave onde lia-se “quarto 312”, encontrado na gaveta de talheres mudou seus planos.
SCORPION MOTEL - Rua Chanceler Osvaldo Aranha, 25. Esquina da rua de trás.
Pensou em ligar pra alguém, mas às duas da manhã, mais assustaria do que obteria ajuda. Com o coração acelerado, virou a esquina escura e avistou a portinha de tinta branca descascada. Uma luz vermelha iluminava a escada estreita e comprida. Respirou fundo e, com a chave na mão, subiu direto ao 3º andar sem nem parar na recepção. Diante da porta do quarto 312 hesitou, mas entendeu que, naquele momento, se houvesse alguma chance de fazer qualquer coisa, essa chance dependeria somente dela. Enfiou a chave na porta, destrancou-a e abriu num misto de preocupação, ansiedade e expectativa, afinal, Martini sempre fora atribuído a quem aprecia um estilo de vida com bom gosto e confiança e que busca momentos marcantes. Glenda ainda não fazia ideia, mas atrás daquela porta algo faria, daquele, um momento realmente marcante.
A luz estava acesa, a cama estava vazia, a porta do banheiro entreaberta e o chuveiro ligado. No cantinho do box de antigos azulejos azuis, uma poça de sangue se formava e do outro lado, Edgar. Nu, com uma faca de cozinha na mão direita e o seu próprio pau, decepado, na outra.
Ainda hoje me pergunto o que eu estava querendo dizer quando escrevi esse texto e, mais ainda, quando li para o cliente cativo que gostava de aparecer. Ele ficou um pouco transtornado me perguntando o que acontecia depois e por quais motivos Edgar havia feito aquilo. Minha resposta: o restante fica por conta do leitor.
Querido leitor, se você me acompanha por aqui, sabe que geralmente escrevo crônicas e atravessamentos, mas tenho uns poucos contos na manga… Já fazia um tempo que eu não aparecia, nem sei ao certo quando te escrevi pela última vez. Que bom que sempre que eu volto, posso te encontrar. Continuo sendo a mesma Priscila Mayer, artista tentando sobreviver aos dias. Para colaborar com meu trabalho que te entretém, fica aqui minha chave PIX : 21994428465.
Até breve!

